quinta-feira, 3 de junho de 2010

A perfeição estava ali na sua frente, nua, adormecida. Não ousava suspirar, o mínimo movimento poderia priva-lo da melhor contemplação proporcionada a um mortal, sua existência não teria outra razão que não viver esse momento sublime. Tentou congelar o tempo, desafiar a vida e ficar assim para todo o sempre, rindo para dentro sem ruído, sentindo-se tão insignificante perto do corpo que pousava sobre a cama. Da janela entrava o primeiro sol da manhã, silencioso, imponente, senhor da luz. Nada mais queria iluminar a não ser ela, deixando o resto do quarto no esquecimento da penumbra. Mulher da pele mais macia que as verdes pradarias, dos lábios mais vermelhos que as romãs explodindo de supra sumo vermelho, dos cabelos mais cheirosos que a flor ao abrir da primavera, do hálito mais fresco que o orvalho da manhã e todas outras coisas que ele mal conseguia sentir, porque ela era muito mais do que poderia expressar seu pensamento. Ela era assim para ele, a coisa mais perfeita entre todas as outras coisas não tão perfeitas que a natureza havia criado. Ele a queria tanto, que fundir-se o seu corpo não era o suficiente, queria tê-la para sempre dentro de si, porque era assim, como conseguir um pedaço exclusivo do céu, e nada mais precisaria para viver feliz até a eternidade. Ela seria sua fonte de completude, dela ele conseguiria o alimento para fazer do seu corpo o mais viril, da sua mente a mais sábia e do seu coração o mais tranquilo de todos. Um desejo de nutri-la com seu calor de humano o tomou por inteiro, mas como poderia proporcionar à mais fantásticas das criaturas algo de reconfortante se ele mesmo não passava de vida pálida e sem sabor? Foi assim que desejou então, que ela o protegesse contra todo os ventos contrários que existiam pra fora daquele quarto.
(...)
Aproximou-se silenciosamente dela, como um sopro brando, abriu-lhe as alvas pernas com delicadeza e a fez engoli-lo por inteiro. Alojou-se no ventre da amada como um parasita apaixonado. Nove meses depois nasceu. Abriu os olhos do corpo recém emprestado. Amou-a como nunca, mas não reconheceu sua deusa.

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